Muhammad — O Profeta Que Uniu a Arábia
O Profeta Que Uniu a Arábia
No ano 610 d.C., numa caverna nas encostas do Jabal al-Nur, acima de Meca, um mercador de quarenta anos chamado Muhammad ibn Abdullah sentiu o abraço de um anjo e ouviu uma ordem: Iqra — 'Lê.' Ele era, por seu próprio relato, analfabeto. O que se seguiu foram vinte e dois anos de revelação, perseguição, migração, guerra, diplomacia e, por fim, a conquista pacífica da cidade que tentara destruí-lo. Hoje, o Islã é a fé de 1,8 bilhão de pessoas; o Alcorão que ele recitou permanece inalterado desde o que foi dito em sua vida. Nenhuma outra vida isolada produziu uma transformação comparável da civilização humana num período tão comprimido.
“Nenhum de vós crê verdadeiramente até que ame para seu irmão o que ama para si mesmo.”
c. 570–632 d.C.
Nascido por volta de 570 d.C. em Meca, durante o que os árabes chamavam de Ano do Elefante. Seu pai, Abdullah, morreu antes de seu nascimento; sua mãe, Amina, morreu quando ele tinha seis anos. Viveu até aproximadamente sessenta e três anos, morrendo em Medina em 8 de junho de 632 d.C. (12 de Rabi al-Awwal, 11 d.H.) nos braços de sua esposa Aisha.
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Da primeira revelação em 610 d.C. até sua morte em 632 d.C., a missão profética de Muhammad durou vinte e dois anos — divididos, aproximadamente, entre treze anos de pregação em Meca (em grande parte em segredo e sob perseguição) e dez anos governando a comunidade islâmica em Medina, culminando na conquista de Meca em 630 d.C.
~100,000+
Na Peregrinação de Despedida de Muhammad, em março de 632 d.C., a tradição islâmica registra uma estimativa de 100,000 a 140,000 seguidores reunidos no Monte Arafat para ouvir seu último sermão. Em sua morte, três meses depois, praticamente toda a Península Arábica havia abraçado o Islã. Em um século, a fé alcançaria a Espanha, o Norte da África, a Pérsia e a Ásia Central.
6,236
O Alcorão contém 6,236 versículos (ayat) distribuídos em 114 capítulos (suras), revelados a Muhammad ao longo de vinte e dois anos. Diferentemente da Bíblia, o Alcorão era memorizado e recitado em voz alta ainda em vida de Muhammad; a compilação escrita começou sob Abu Bakr e foi padronizada sob Uthman ibn Affan (644–656 d.C.). Continua sendo o livro mais memorizado do mundo.
Fundador do Islã, Profeta de Deus, estadista e comandante militar que unificou a Península Arábica e revelou o Alcorão — o texto sagrado que moldou a vida de mais de 1,8 bilhão de pessoas
Eventos Decisivos
A Noite do Destino
Na Caverna de Hira, no Jabal al-Nur, Muhammad recebeu a primeira revelação do Alcorão do Anjo Jibril (Gabriel) — as palavras iniciais da Surata Al-Alaq: "Lê, em nome do teu Senhor, que criou." Abalado, voltou para casa, para Khadija, que o envolveu num manto e o levou a seu primo cristão, Waraqah ibn Nawfal, que confirmou tratar-se do mesmo anjo que viera a Moisés. A noite é celebrada como Laylat al-Qadr e cai nos últimos dez dias do Ramadã.
A Hégira para Medina
Diante de uma conspiração dos coraixitas para assassiná-lo, Muhammad e Abu Bakr fugiram de Meca em julho de 622 d.C., escondendo-se por três dias na Caverna de Thawr antes de seguir rumo ao norte, para Yathrib. Essa migração — a Hégira — revelou-se tão transformadora que se tornou o Ano 1 do calendário islâmico. Em Medina, Muhammad redigiu a Constituição de Medina, estabelecendo uma confederação multirreligiosa, construiu a primeira mesquita e forjou a comunidade de crentes que remodelaria o mundo.
A Conquista de Meca
Depois que os coraixitas violaram o Tratado de Hudaybiyyah, Muhammad marchou sobre Meca com um exército de aproximadamente 10,000. A cidade que torturara seus seguidores, matara sua família e o expulsara para o exílio rendeu-se quase sem derramamento de sangue. Muhammad declarou uma anistia geral — "Estais livres" —, entrou na Caaba, destruiu os 360 ídolos e rededicou o antigo santuário ao Deus de Abraão. Foi talvez a mais generosa vitória militar da história antiga.
Linha do Tempo
Nascimento em Meca
Muhammad ibn Abdullah nasce em Meca, no clã Hashim, da poderosa tribo coraixita. Seu pai, Abdullah ibn Abd al-Muttalib, já havia morrido numa viagem comercial a Medina antes do nascimento. O ano é tradicionalmente chamado de <em>Ano do Elefante</em>, em referência a uma campanha abissínia contra Meca. Sua mãe, Amina bint Wahb, dá-lhe o nome de Muhammad — "O Louvado" —, nome praticamente desconhecido na Arábia da época.
A Morte de Sua Mãe
A mãe de Muhammad, Amina, morre no oásis de Abwa, na estrada entre Meca e Medina, ao retornar de uma visita ao túmulo do marido em Yathrib (Medina). A criança de seis anos passa aos cuidados do avô paterno, Abd al-Muttalib, um ancião de alta posição em Meca. Quando o próprio Abd al-Muttalib morre, dois anos depois, Muhammad passa à tutela de seu tio Abu Talib, que o protegerá pelos quarenta e dois anos seguintes.
Primeira Viagem à Síria
Acompanhando seu tio Abu Talib numa caravana comercial rumo à Síria, o jovem Muhammad encontra em Bosra um monge cristão chamado Bahira que, segundo a tradição islâmica, reconhece nele sinais de profecia. Ele ganha crescente respeito em Meca por seu caráter, adquirindo os epítetos <em>al-Amin</em> ("o Confiável") e <em>al-Sadiq</em> ("o Verdadeiro") — distinção incomum numa cidade erguida sobre o comércio e a negociação.
Casamento com Khadija
Muhammad, com aproximadamente vinte e cinco anos, entra a serviço de Khadija bint Khuwaylid, viúva rica e mercadora independente de alta posição em Meca, cerca de quinze anos mais velha do que ele. Impressionada com sua integridade e com o sucesso da expedição comercial que ele realizou à Síria em seu nome, ela lhe propõe casamento. A união é monogâmica pelos vinte e quatro anos em que dura. Khadija se tornará a primeira muçulmana, seu maior consolo e mãe de seus seis filhos. A morte dela, em 619 d.C., o devasta.
A Disputa da Pedra Negra
Quando os coraixitas reconstroem a Caaba após uma enchente, irrompe uma disputa amarga sobre qual clã teria a honra de restituir a sagrada Pedra Negra (al-Hajar al-Aswad) ao seu lugar. Muhammad, com cerca de trinta e cinco anos e reconhecido por seu julgamento imparcial, é escolhido como árbitro. Ele estende um manto no chão, coloca a pedra sobre ele e instrui representantes de cada clã a erguerem as bordas juntos — depois coloca a pedra ele mesmo em seu lugar. A solução elegante evita uma possível guerra entre as tribos.
Primeira Revelação — Laylat al-Qadr
Durante seu retiro habitual na Caverna de Hira, no Jabal al-Nur, Muhammad vive a primeira revelação do Alcorão. O Anjo Jibril aparece, abraça-o com força três vezes, com a ordem <em>Iqra</em> ("Lê!"), e então recita os versículos iniciais da Surata Al-Alaq. Abalado e temendo ter perdido a razão, Muhammad corre para casa. Khadija o tranquiliza; o primo dela, Waraqah ibn Nawfal — erudito bíblico já idoso — confirma que ele recebera uma revelação divina, assim como Moisés antes dele. Khadija se torna a primeira muçulmana.
Começa a Pregação Pública
Após vários anos de pregação privada em pequenas reuniões, Muhammad passa a declarar sua mensagem abertamente em Meca. Sua proclamação do monoteísmo absoluto — <em>La ilaha illa Allah</em>, 'Não há divindade além de Deus' — ameaça diretamente a economia de peregrinação dos coraixitas, que dependia dos 360 ídolos tribais abrigados na Caaba. A elite mercantil da cidade organiza uma perseguição sistemática a seus seguidores, sobretudo os que não tinham proteção tribal. Bilal ibn Rabah, um homem etíope escravizado, é torturado na areia quente do deserto, com pedras colocadas sobre o peito, clamando <em>Ahad, Ahad</em> — 'Um, Um.'
O Ano da Tristeza
Com poucas semanas de diferença, Muhammad perde as duas pessoas que mais o haviam protegido. Khadija, sua esposa por vinte e quatro anos, morre após uma doença. Depois, seu tio Abu Talib — que o abrigara da violência dos coraixitas, embora nunca tivesse se convertido — morre sem aceitar o Islã. Sem o apoio emocional de Khadija e a proteção tribal de Abu Talib, Muhammad fica perigosamente exposto. Uma viagem em busca de apoio em Taif termina em zombaria e apedrejamento. Ele mais tarde descreveria esse como o ano mais difícil de sua vida.
A Hégira — Migração para Medina
Os coraixitas, temendo a influência crescente de Muhammad entre as tribos de Medina (Yathrib), formam uma conspiração para assassiná-lo. Muhammad e seu íntimo companheiro Abu Bakr fogem secretamente de Meca, escondendo-se por três dias na Caverna de Thawr, ao sul da cidade, enquanto grupos de busca passam nas proximidades. Chegam a Quba, nos arredores de Medina, em 20 de setembro de 622 d.C. — erguendo ali a primeira mesquita do Islã — e entram na própria cidade em 24 de setembro. Essa <em>Hégira</em> (migração) torna-se tão decisiva que marca o Ano Um do calendário lunar islâmico.
Batalha de Badr
O primeiro grande confronto militar do nascente Estado islâmico. Muhammad lidera aproximadamente 313 muçulmanos mal equipados contra uma força meca de quase 1,000 sob o comando de Abu Jahl, que viera escoltar uma grande caravana comercial. Os muçulmanos vencem de forma decisiva: cerca de 70 mecanos são mortos (incluindo o próprio Abu Jahl), 70 são feitos prisioneiros; apenas 14 muçulmanos morrem. O Alcorão dedica um capítulo inteiro — a Surata Al-Anfal, "Os Espólios" — à batalha, declarando a vitória um sinal de assistência divina. A derrota choca e enfurece os coraixitas.
Batalha de Uhud
Um exército meca de 3,000 soldados sob o comando de Abu Sufyan marcha sobre Medina. Os muçulmanos avançam a princípio, mas quando um grupo de arqueiros abandona seu posto numa colina para recolher espólios, uma carga de cavalaria liderada por Khalid ibn al-Walid vira o rumo da batalha. Muhammad é ferido — derrubado ao chão, sangrando pelo rosto — e rumores de sua morte espalham pânico entre as fileiras muçulmanas. Cerca de 70 muçulmanos morrem, incluindo seu amado tio Hamza ibn Abd al-Muttalib. A batalha ensina lições duras sobre disciplina, e sua reviravolta é tratada na Surata Al-Imran.
Batalha da Trincheira
Uma coalizão de 10,000 opositores — incluindo os coraixitas, tribos aliadas e antigos aliados judeus — cerca Medina. Sob a sugestão inspirada de Salman al-Farsi, companheiro persa, Muhammad ordena que se cave uma trincheira defensiva (<em>khandaq</em>) em torno do vulnerável perímetro norte de Medina — tática sem precedentes na guerra arábica. A coalizão, incapaz de atravessar a trincheira, permanece frustrada por vinte e sete dias, até que uma combinação de divisões internas, mau tempo e a diplomacia de Muhammad dissolve a aliança. É a última grande ofensiva meca contra Medina.
Tratado de Hudaybiyyah
Muhammad lidera aproximadamente 1,400 muçulmanos rumo a Meca para realizar a peregrinação menor (<em>Umrah</em>), mas forças coraixitas os bloqueiam em Hudaybiyyah, nos arredores da cidade. Nas negociações, Muhammad aceita termos amplamente vistos como humilhantes: a peregrinação é adiada por um ano; qualquer meca que se junte a Muhammad deve ser devolvido, mas nenhum muçulmano que se junte aos coraixitas precisa sê-lo. Seus companheiros ficam indignados. Ainda assim, o Alcorão a chama de <em>fath mubin</em> — "uma vitória manifesta" — reconhecendo que a legitimidade do tratado deu ao Islã, pela primeira vez, um status diplomático equivalente ao de Meca.
Conquista de Meca
Quando os coraixitas violam o Tratado de Hudaybiyyah ao atacar uma tribo aliada dos muçulmanos, Muhammad marcha sobre Meca com um exército de 10,000 — a maior força já reunida na Arábia até então. A cidade se rende quase sem derramamento de sangue. Muhammad entra em Meca sobre seu camelo numa atitude de prostração, o queixo quase tocando a sela em humildade. Ele declara uma anistia geral para a cidade que o perseguira e expulsara. Entra na Caaba e destrói seus 360 ídolos, recitando o versículo alcorânico: <em>"A verdade chegou, e a falsidade se dissipou."</em>
A Peregrinação de Despedida
Muhammad realiza o Hajj pela primeira e única vez — o <em>Hajj al-Wada</em>, a Peregrinação de Despedida. Estima-se que 100,000 a 140,000 muçulmanos o acompanham. Na planície de Arafat, ele profere seu último grande sermão, proclamando a igualdade de toda a humanidade perante Deus, o fim das vendetas tribais, os direitos das mulheres e o caráter sagrado da vida e dos bens de cada muçulmano. Ele conclui: <em>"Transmiti a mensagem? Ó Deus, sê minha testemunha."</em> A multidão responde: <em>"Sim!"</em> O Alcorão então revela: <em>"Hoje aperfeiçoei para vós a vossa religião."</em> (Surata Al-Maidah 5:3)
Morte em Medina
Três meses após seu Sermão de Despedida, Muhammad adoece gravemente, com febre intensa e fortes dores de cabeça. Continua liderando as orações de seu leito de doente enquanto pode, depois pede a Abu Bakr que o substitua. Morre em 8 de junho de 632 d.C. (12 de Rabi al-Awwal, 11 d.H.) em sua casa, ao lado da mesquita, com a cabeça repousando no colo de sua esposa Aisha. Tem aproximadamente sessenta e três anos. Abu Bakr se dirige à comunidade enlutada: <em>"Quem adorava Muhammad, saiba que Muhammad está morto. Quem adora Deus, saiba que Deus está vivo e jamais morre."</em> Muhammad é sepultado onde morreu — sob o que é hoje a Cúpula Verde da Masjid al-Nabawi.
Figuras Centrais
Khadija bint Khuwaylid
Mercadora rica e independente, quinze anos mais velha do que ele, Khadija propôs casamento a Muhammad depois de testemunhar sua integridade numa expedição comercial. Quando veio a primeira revelação e Muhammad tremia de medo, foi Khadija quem o envolveu em seu manto, acalmou seus nervos e declarou: 'Por Deus, Ele jamais te desonrará.' Foi a primeira pessoa a aceitar o Islã — antes de Abu Bakr, antes de Ali, antes de qualquer outro. Deu a Muhammad seis filhos e lhe proporcionou a segurança financeira que o libertou para se dedicar à sua missão. A morte dela, em 619 d.C., durante o Ano da Tristeza, quebrou nele algo que nunca cicatrizou por completo. Ele falou dela com amor até o fim de sua vida.
Abu Bakr al-Siddiq
Mercador próspero e um dos primeiros convertidos, Abu Bakr foi o companheiro mais íntimo de Muhammad — aquele que o acompanhou na perigosa fuga da Hégira para Medina, escondendo-se com ele na Caverna de Thawr enquanto grupos de busca coraixitas passavam do lado de fora. Seu título, <em>al-Siddiq</em> ("o Verdadeiro"), foi-lhe dado pelo próprio Muhammad. Quando Muhammad adoeceu e não pôde mais liderar as orações, pediu a Abu Bakr que ocupasse seu lugar — ato amplamente interpretado como a designação de seu sucessor. Com a morte de Muhammad, Abu Bakr tornou-se o primeiro Califa, preservando a frágil comunidade muçulmana contra as revoltas tribais das Guerras Ridda. Foi Abu Bakr quem deu início à compilação do Alcorão num único manuscrito escrito.
O Legado de Muhammad
Muhammad morreu como havia vivido — sem palácio, sem tesouro, sem um exército sob seu comando pessoal. Sua cota de malha de ferro estava penhorada a um mercador judeu de Medina em troca de trinta medidas de cevada para sua família. Ainda assim, um século após sua morte, a civilização que sua revelação despertara já havia produzido algumas das mais sofisticadas obras de erudição, arquitetura e governo que o mundo medieval conheceria — da Idade de Ouro abássida em Bagdá às cortes da Andaluzia.
Ele foi, por qualquer medida, a vida isolada mais consequente da era medieval. A fé que fundou é hoje a segunda maior religião da Terra, com 1,8 bilhão de fiéis. O Alcorão que ele recitou permanece, catorze séculos depois, memorizado em seu árabe original por milhões de pessoas ao redor do mundo — inalterado numa única letra sequer daquilo que foi pronunciado na Arábia do século VII.
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